Mitos e verdades sobre a hanseníase

O diagnóstico tardio da doença é um dos principais agravantes

Colaborou: Fernanda Menucci e Larissa Santin

A hanseníase, doença quase tão antiga quanto a humanidade, nos remete às mais terríveis imagens mentais. Antigamente conhecida como lepra, é uma doença historicamente estigmatizada, relatada nos textos do antigo testamento, porém ainda presente no Brasil do século XXI. Hoje a hanseníase (nome escolhido como forma de retirar o peso do antigo termo e aliviar o estigma do seu portador) ainda existe e registra novos casos cada ano.

Automaticamente relacionada a deformidades corporais, e, erroneamente, à falta de higiene, algumas pessoas sentem desconforto em relação ao assunto. Mas o imaginário do leproso bíblico não é, necessariamente, a realidade do doente de hoje. O preconceito, às vezes explícito, às vezes velado, ainda acompanha quem teve, em algum momento da vida, o bacilo de Hansen. A bactéria responsável pela doença atinge os nervos periféricos do corpo, acarretando deformidades e perda gradativa de sensibilidade. Quando identificada e tratada com antecedência, as sequelas deixadas pela hanseníase podem ser quase imperceptíveis e o paciente pode viver uma vida normal, sem indicar sua condição.

Diferentemente do que ocorria até o século passado, hoje não há mais a necessidade do isolamento do doente para segurança da maioria. Após o desenvolvimento de um medicamento eficaz contra o bacilo, o paciente de hanseníase pode retornar ao convívio social sem apresentar riscos. Dionei Santos é terapeuta ocupacional em Piraquara, em um centro especializado que atende pessoas com feridas crônicas e hanseníase. Ela explica que os pacientes diagnosticados precisam de treinamento para aprender a cuidar de seu corpo. Como há perda de sensibilidade, são comuns queimaduras e cortes profundos sem o paciente sentir, o que pode gerar infecções e amputações. Nesses casos, é necessário o desenvolvimento de uma rotina de autocuidado.

“A gente orienta o paciente a usar utensílios que preservem aquela mão, aquele pé. Não andar descalço. E sempre estar mapeando a questão da sensibilidade.” Dionei Santos

“Uma vez faltando o tato e gente tem que substituir pelo olhar. Analisar o que ele vai fazer e utilizar alguns utensílios, como luvas, cabos para que se isole o calor.” No centro onde trabalha, ela faz o diagnóstico, mapeia os locais com alteração de sensibilidade, faz o acompanhamento desses pacientes e realiza treinamentos para a prevenção de incapacidade.

A transmissão se dá por meio das vias aéreas, através da fala, de tosse e espirros. Porém, para o contágio, é necessário se enquadrar em uma série de fatores, como o contato prolongado com o doente (que não está recebendo tratamento) e estar com a imunidade baixa.

Políticas públicas
Para Dione, a divulgação da hanseníase e a melhor política pública para o problema. Ela conta que, com
campanhas, mais pessoas vêm ao posto para descobrir se a sua marca é uma micose, hanseníase ou outra doença. “Se existissem mais campanhas, iríamos descobrir novos casos, e não casos tardios.” Segundo ela, qualidade de vida também está relacionada à manifestação do bacilo. Falta de saneamento básico, por exemplo, está ligada à baixa imunidade. Locais sujos e com grande aglomeração de pessoas, como, por exemplo, favelas, tem relação direta com a história da hanseníase. Pessoas que vivem em condições assim têm chance de contaminação maior, alerta Dione.

Para a presidente estadual da Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Francisca Barros da Silva, 62, políticas públicas direcionadas a doença no Estado do Paraná e no Brasil deixam a desejar. “Se existissem políticas públicas para hanseníase não haveria tantos casos no Estado do Paraná e tantas sequelas grau 2”. Segundo ela, há um número significativo de pessoas procuram o serviço de saúde para tratamento já se encontrando no grau 2 (grau de maior incapacidade e danos no sistema nervoso). Francisca diz que algumas doenças são tratadas de formas muito enfática. Ela cita, por exemplo, os casos da aids e da dengue, que são mazelas combatidas com vigor e muito mencionadas na mídia. Já “a hanseníase está sempre em último lugar” se tratando de divulgação e atenção do poder público.

Jaquelina Finau, coordenadora estadual de Hanseníase da secretaria estadual de saúde, conta que o maior desafio das políticas públicas é a sensibilização dos profissionais da saúde e da população em relação ao diagnóstico da doença, que muitas vezes ocorre de forma tardia. A secretaria possui há mais de 30 anos programas direcionados à hanseníase e também investe em campanhas de conscientização, para tentar retirar um pouco do estigma relacionado à doença.

Embora haja uma queda nos casos registrados da doença nos últimos três anos, Jaqueline alerta que a questão do diagnóstico tardio pode afetar diretamente os dados recolhidos. Em 2015, há o registro de 737 casos, em 2016 foram 584 e 2017, até o período atual, foram constatados 128 casos. A meta estipulada pelo Ministério da Saúde para a eliminação da doença é de um caso a cada 10 mil habitantes, deixando o estado do Paraná dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

MITOS

A hanseníase não é transmitida por:
• Copos, pratos e talheres.
• Cadeiras e bancos
• Aperto de mão, abraços, contatos
rápidos em transporte coletivo
• Picada de insetos
• Relação sexual
• Aleitamento materno
• Herança genética

SINTOMAS

• Manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas em
qualquer parte do corpo, com diminuição ou perda da sensibilidade
nessa região.
• Manchas que não coçam, são dormentes e não desaparecem rapidamente.
• Caroços ou inchaços no corpo, em alguns casos avermelhados ou doloridos.
• Dor e sensação de choque, fisgadas ou agulhadas ou longo dos nervos dos braços,
mãos, pernas e pés.
• Áreas com diminuição de pelos e do suor
• Perda da sensibilidade ou da força do quinto dedo, mãos, pés e na face.

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