Muito bonzinho até que…

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Colaborou Vinícius Sgarbe – Jornalista. Publica no Brasil e exterior

Ouço dizer de um “brasileiro cordial” que é uma maldição na Terra. Aprofundar-se nessa conversa requer leituras atentas dos nacionais da sociologia – mas, francamente, pode ser um exame inútil, especialmente se confirmada a hipótese de que somos um povo bunda-mole. Longe de mim afracar a honra da leitura, imagina, quem sou eu.

Estudar nunca é demais, mesmo que todos os assuntos polêmicos da última hora estejam envelhecidos, em rolos de papel, há mais de dois mil anos. E que, apesar de conscientes da importância do estudo desde pequenininhos, opinemos sobre assuntos que não temos a menor ideia. “Recebi no WhatsApp. Vi no Facebook. O padre disse”. Mas, cordialmente, deixa para lá. Vai comprar problema à toa. Racismo, sexismo, a perversa alma que se revela na venda do voto. Deixa para lá. Eles resolvem. São malas de soluções.

Eu tinha 18 anos e frequentava a terapia porque a questão dos dinossauros era importante naquela época. “Como que pode, alguém duvidar que esses animais existiram? Tem lógica, tem escavações, ossos”, eu defendia. Por aqueles dias, um pretenso pastor garantia aos crentes: “Os dinossauros morreram porque não cabiam na arca de Noé”. Parte do apetite pela vida que perdi foi ao saber dessa história. Isso que o texto é bom. Parece uma descrição do escritor latino García Márquez. Algo como um povo do pântano, que não tinha dentes e acreditava que os dinossauros morreram no dilúvio. Mas a iniciativa daquele pastor era muito mal criada.

“Qualquer divergência simples agora é “polêmica!”.

Um gosta de azul, outro de verde, polêmica! – que porre”

Pior ainda o povo que acreditava na bruxaria. “Se ele estiver mentindo, ele que se acerte com Deus”, pensam assim até hoje. O psicólogo, judiação, consolava-me: “Você não tem nada a ver com o problema dos dinossauros”.
Um par de anos desde isso tudo, quando, subitamente, encontro-me adulto. Sou um homem conformado não somente com a hipótese mais improvável sobre a extinção de uma espécie mas também com a impossibilidade de debate. Não gosto de perder tempo e tampouco de sentir rejeição – mesmo quando digo de gente inclinada ao rancor – pessoas pelas quais não se deveria sentir qualquer tristeza na despedida. Inimigos de internet.

Faz umas semanas, postei um texto polêmico (que palavrinha mais sem-vergonha essa, “polêmica”. Qualquer divergência simples agora é “polêmica!”. Um gosta de azul, outro de verde, polêmica! – que porre). E a polêmica daquela vez era sobre cuidados que adultos deveriam tomar para proteger crianças da sexualização precoce. Sugeri, fundamentado em dados das polícias e das pessoas que vivem para essa causa, que as atenções mais importantes ficassem nos ambientes aparentemente seguros – como as casas, as escolas e as igrejas. Poucas horas depois eu já tinha sido chamado de todos os piores nomes que conhecemos em 2017.

O que eu tinha noticiado eram recomendações adultas, realistas, éticas. Mas, falou-se uma palavrinha que deixou alguém morrendo de medo de perder a fé, perder a tábua moral de salvação, e estava liberado: eu podia ser ofendido publicamente como se eu não tivesse família, igreja ou conhecimento.

É disto que tratamos aqui, da compaixão barata que escolhe quem vai enxovalhar na primeira oportunidade. Tem mais coisas que não se salvaram na arca, além da civilidade. A universidade que troca com o mercado, o empresário que desce do pedestal de pagador de impostos, o político que não defende o indefensável, o parente que não despreza o filho homossexual, a patroa que trata a empregada de igual para igual.

Quando as chuvas pararam, Noé soltou uma ave e ela voltou com um bilhete no bico. Estava escrito: “Faça mais perguntas”, junto a um emoji de coração. Obrigado por essa conversa.

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