No verão de Curitiba, as ruas viraram rios

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Por: Natalie Unterstell – mestre em administração pública pela Universidade de Harvard /Coordenadora do projeto “Infra 2038”

A enchente do mês de março atingiu a casa de Karine Carvalho, jornalista, no Santa Cândida. Ela perdeu seus materiais de trabalho, inclusive seu computador pessoal, móveis, geladeira, fotos e roupas. Depois de ter sua casa invadida pela água seguidas vezes no mesmo mês, Karine se mudou com sua família para Mandirituba, para começar vida nova.

Não é coisa pouca. Essas enchentes, que foram sentidas com força também na CIC e outros bairros, são uma demonstração do que se pode esperar em tempos de aquecimento global. Em função do aumento da poluição por carros, indústrias e desmatamento, esse fenômeno tem se acelerado e a força das chuvas cresce com ele.

Tem quem pense que é papo furado esse negócio do clima se tornar tão  imprevisível. Afinal, chuva forte a gente sempre viu. A diferença agora é que, a cada grau de aumento da temperatura da Terra, as chuvas ganham mais potência. Pode-se chover em uma hora, o esperado para chover em um mês. A tendência é só piorar, ano após ano, verão após verão.

Parte da solução está na mão dos cidadãos que habitam as áreas mais propensas a enchentes. É possível, por exemplo, diminuir a velocidade das águas que chegam ao solo. Para isso, todos os terrenos têm que ter pelo menos uma parte aberta, com terra mesmo, para que a água possa se infiltrar e não corra em forma de enxurrada.
Prédios podem coletar a água da chuva com uma caixa d’água auxiliar e usar para lavar calçada, regar jardim, entre outros.

Os cidadãos também podem se organizar para fazer “jardins de chuva”. Criado pelo africano Phiri Maseko, conhecido por ser “o homem que plantava chuva”, o método consiste em abrir canteiros fundos e nele colocar plantas que se alimentarão das chuvas. Já vem sendo utilizado com sucesso em São Paulo.

Do ponto de vista do poder público, é hora de demandar que nosso prefeito se comprometa a investir e responder de modo visível e coletivo aos novos riscos impostos à cidade. Isso implica em rever as áreas habitadas irregularmente, pois podem estar justamente sobre áreas de mananciais que abastecem as cidades ou mesmo impedindo que as águas das chuvas circulem pelas várzeas dos rios.

Não se trata de ficção científica nem de alarmismo inconsequente. As enchentes vividas em Curitiba neste ano alertam para a necessidade de uma visão de longo prazo que considere os impactos da mudança do clima sobre a cidade e sobre a nossa vida cotidiana nela.

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