PAIS E PROFESSORES DEVEM FICAR ATENTOS AOS SINAIS DAS CRIANÇAS

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Em 2018 foram registrados 599 casos de

abuso sexual contra crianças e adolescentes em Curitiba

Por Caroline Paulart

 

Um assunto muito delicado, mas de extrema importância no debate da sociedade. O último dia 18 de maio, foi marcado pelo Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescente, data que reforça a importância dessa abordagem. De acordo com o boletim Análise Epidemiológica da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, divulgado em 2018 pelo Governo Federal, entre 2011 e 2017 foram registrados em todo o país 184.524 casos, sendo a maioria dos crimes cometidos por pessoas do sexo masculino (80%) e que tinham vínculo com a vítima, sendo grau de parentesco ou amizade (64%). Em Curitiba foram 599 casos em 2018, segundo dados do Sistema Nacional de
Atendimento Médico (Sinam).

Carolina Gadens Marchiori, especialista em Psicologia Clínica Cognitivo Comportamental pela
(FEPAR-PR) e especialista em Sexualidade Humana (FMUSP-SP) explica que é papel dos pais
educar seus filhos e criar o hábito do diálogo em casa, incluindo também este tema, sempre
respeitando a idade e maturidade de cada criança, bem como a sua curiosidade.
“No geral é importante que os pais as orientem com relação a alguns aspectos: a respeitar o
limite do seu corpo; que a criança pode se negar a beijar e abraçar qualquer pessoa se ela não
se sentir confortável para isso (mesmo que seja uma demonstração de afeto); ajudar a criança
a identificar quais partes do corpo podem ser tocadas, fotografadas ou filmadas ou não e
nomeá-las; da mesma forma, elas não deverão tocar essas partes do corpo em outras pessoas,
mesmo que sejam pessoas ‘legais’ e que ofereçam brinquedos e doces em troca. Orientar que
ela não deve manter segredos com as pessoas de sua confiança, mesmo que falem que
acontecerá algo ruim ou que os pais vão ficar bravos se elas contarem. Orientar que elas
devem contar mesmo se o adulto/criança que propuserem isso tenham convívio próximo. Os
pais devem ensinar seus filhos a como sair de possíveis situações de perigo, além de fiscalizem
com frequência celulares e sites que seus filhos navegam, já que são formas de aproximação
utilizadas por pedófilos”, orienta.

Tanto crianças, como adolescentes têm muito acesso à informação hoje, e cabe aos pais
servirem como filtro para que conteúdo inapropriado a idade delas não cheguem ao seu
conhecimento, especialmente conteúdos que mostram insinuações ou a pornografia
propriamente dita, conforme explica a psicóloga. Segundo ela, quando elas ficam expostas a
esses conteúdos podem ficar confusas e muitas vezes reproduzem o que estão vendo, visto
que a mídia tem um papel importante para influenciar pessoas.
Além de saberem orientar seus filhos sobre como prevenir essa situação, é importante que os
pais saibam verificar sinais que as crianças e adolescentes possam emitir e que sejam avisos de
que algo está acontecendo. Carolina explica que essas pequenas vítimas demonstram de
formas diferentes, pois tudo depende de como aconteceu, personalidade da criança e do
ambiente e apoio familiar que ela recebe dentro de casa.

Entretanto ressalta que há mudanças bruscas no comportamento, e há sinais comuns às
vítimas como conhecimento sexual inapropriado para a sua idade, envolvimento dos colegas
em brincadeiras sexuais, dificuldade para dormir, isolamento social, dificuldade para se
concentrar, queda no rendimento escolar, dificuldade para confiar em adultos, entre outros. Já
na adolescência, a psicóloga diz que são comuns mudanças de comportamento, porém é
importante observar se ocorreram dentro de um conjunto de mudanças bruscas e não apenas
as mudanças típicas da idade.
Para a reversão deste trauma e que ele reflita o menos possível na vida adulta desta vítima, é
essencial que ela e a família passem por tratamento psicológico.

O abusador


Carolina explica que quem comete o abuso sexual é o abusador, mas nem todo abusador é
considerado um pedófilo. “O pedófilo é aquele que tem o Transtorno de Preferência Sexual ou
Parafilia. Pessoas que têm a parafilia direcionam seus impulsos sexuais, fantasias e práticas
sexuais para as crianças. Elas se sentem atraídas por crianças. É um transtorno que se
medicado e realizado o acompanhamento psicológico é possível o controle, mas não a cura. Os
abusadores (que não têm o diagnóstico de pedofilia) aparentemente são adequados
socialmente e por isso é mais difícil detectar. Os pedófilos tendem a ser pessoas solitárias e
com aversão a sexualidade adulta. Apesar de serem comuns essas características não dá para
generalizar que todas as pessoas que as possuem possam ser consideradas pedófilos. Cada
caso deve ser analisado isoladamente”, diz.

Denúncia do crime


De acordo com o delegado José Barreto, responsável pelo Núcleo de Proteção à Criança e ao
Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), delegacia especializada em atendimento a crianças e
adolescentes vítimas de crimes, entre todos os atendidos este é o mais grave. Os canais para
denúncias de crimes como esses podem ser o próprio Nucria, para as polícias Civil e Militar,
Guarda Municipal, Conselho Tutelar, Fundação de Ação Social (FAS) e Ministério Público.
Denúncias anônimas podem ser feitas pelo 181 ou pelo site http://www.181.pr.gov.br ou pelo
Disque 100.

Quando constatado o crime, o autor é preso – se prisão em flagrante, não cabe fiança e o
suspeito fica aguardando definição do juiz – ou, em caso de não flagrante, precisa se
apresentar na delegacia. A criança ou adolescente é encaminhado para os hospitais que
possuem parceria de atendimento às vítimas – Hospital Pequeno Príncipe, Hospital Evangélico
e Hospital de Clínicas – para a realização do exame de corpo de delito e realização de exames
(para verificar se não houve ingestão de drogas ou álcool) e profilaxia contra doenças.
O Nucria possui um atendimento especializado e o depoimento da vítima é coletado conforme
a Lei 13.431/2017, procurando proteger a criança e prevenir que ela acabe revivendo o
trauma, por isso conta com uma equipe de Psicologia preparada e especializada nestes
atendimentos, que usa várias ferramentas para que a criança ou adolescente consiga contar,
seja por fala, escrita ou desenho, o que aconteceu.

O suspeito é afastado da residência – caso more com a criança –, mas existe a possibilidade de
que, em casos de ameaças, a pessoa responsável pela criança entre com pedido de proteção,
restringindo ainda mais o acesso à vítima.

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