Entre gigantes cidadãos, lobos e zumbis midiáticos: eis a Reforma da Previdência

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Colaborou: Caio Pinheiro, Mestre em História.
Escreve sobre política e economia.

Amordaçar, encarcerar, silenciar e resignar são verbos que representam os fins objetivados pelos que hoje governam o Brasil. Neste contexto, não são raros os analistas políticos interessados em saber aonde foram parar os cidadãos que, no contexto das manifestações de junho de 2013, tomaram as ruas de todo país.

A expressão metafórica de um “povo-gigante” que havia acordado não trouxe apenas medo à classe política, mas, acima de qualquer avaliação, representava a transfiguração da indignação popular em
ações na arena política. Era como se uma tempestade de esperança fosse apagar as chamas da imoralidade, que há tempos convertia em cinzas o sonho de uma nação mais justa, inclusiva e democrática.

Entretanto, transcorridos cinco anos desse surto de democracia participativa, vemos que tudo não passou de um prognóstico feito através de uma leitura precipitada daquela realidade. Independemente das nossas preferências político-ideológicas, é fácil constatar o quanto nossa
indignação foi condicionada pelo malabarismo retórico dos grandes veículos de comunicação, interessados em garantir sua parte do espólio.

Vieram, então, novas mobilizações de rua, porém, com um viés político, mas claro. Cidadãos vestidos de verde e amarelo reuniram-se em torno do pato da FIESP pelo Brasil afora. Mobilizados por movimentos como MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem pra Rua, membros da classe média se
autoproclamavam apolíticos; todavia, jamais se preocuparam em questionar quem financiava a estrutura custosa dos seus atos.

O ódio assumira dimensões de total despudor. De um lado, a mídia corporativa cumpriu seu papel,
enquanto nós, cidadãos, aprendemos rapidamente a nos odiar, criando abismos intransponíveis que nos segregam enquanto povo, inviabilizando o diálogo entre os diferentes, base fundante de qualquer sistema democrático.

Mas um hiato contestatório se instaurou no país. Depois do impedimento presidencial, incrivelmente, o povo-gigante voltou a dormir. Mesmo com os barulhentos casos de corrupção, a indignação popular insiste em repousar. Conversas presidenciais pouco republicanas, assessor correndo com mala de dinheiro, evolução patrimonial exponencial de juízes e procuradores, obstrução da justiça, milhões de reais encontrados em apartamento, nada disso foi capaz de abalar o sono do povo-gigante.

Diante desse quadro de apatia política, muitos buscam uma explicação. Dentre as teses que tentam explicar o imobilismo político que acomete parcelas significativas da sociedade brasileira, apetecem-me as que identificam a desinformação como fator justificador da nossa (com suas justas exceções) atual inércia contestatória. Refiro-me aqui à desinformação como a “ação de suprimir uma informação, de minimizar o seu efeito” ou de dar “falsa informação às pessoas para fazê-las acreditar em algo falso ou esconder a verdade”.

Hoje, essa desinformação é diuturnamente instrumentalizada para nos fazer aceitar aquela que será a mais terrível das reformas, quer seja, a dita, mas incompreendida Reforma da Previdência. Milhões de reais do erário público estão sendo gastos para publicizar essa reforma como a solução definitiva de to dos os males.

Imprescindível, fundamental, irrefutável, incontestável, saída, luz ou redenção constituem algumas
das adjetivações que fazem parte do apelo reformista. Por isso, sinto-me compelido a dizer por que sou contra a Reforma da Previdência. O relatório final da CPI da previdência, que teve pouca
visibilidade na grande mídia, aponta erros na proposta de reforma apresentada pelo governo. Sugere emendas à Constituição e projetos de lei, assim como indica uma série de providências a serem tomadas para o equilíbrio do sistema previdenciário brasileiro, como mecanismos de
combate às fraudes, mais rigor na cobrança dos grandes devedores e o fim do desvio de recursos para outros setores.

Diante do exposto, conclui-se que o problema da previdência não está na falta de dinheiro, mas,
sim, no sistema de gestão. Segundo o economista Eduardo Fagnani, professor de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a questão previdenciária se resolverá com a maior austeridade administrativa do nosso sistema de seguridade social, associado a medidas que estimulem o crescimento econômico, a formalização do trabalho, o crescimento da produtividade e o aumento das receitas da Previdência Social.

Infelizmente, a PEC 287/16 (Reforma da Previdência) visa dificultar de várias maneiras o acesso da população à Previdência Social Pública. Se aprovada abrirá as portas para a privatização de uma das mais importantes políticas públicas do país. Sem fatalismos, mas ciente das suas implicações
sociais, devo prognosticar que muitos trabalhadores impossibilitados de contribuir para os fundos públicos ou privados, ficarão sem cobertura previdenciária digna num futuro breve se o reformismo Temista continuar.

Para nós, brasileiros interessados em uma nação mais justa, só há um caminho: as redes alternativas de informação. Precisamos empoderar nossos pares com novas leituras da realidade nacional. O processo de desinformação é um dos maiores obstáculos ao exercício da cidadania plena, sem a qual, nos manteremos como zumbis amarelados vociferando o ódio seletivo.

Contraditando Thomas Hobbes (1588-1619), “o homem não pode ser o lobo do próprio homem”. Necessitamos de um novo pacto social, capaz de forjar uma institucionalidade digna dos nossos anseios enquanto nação. Embora deleguemos constitucionalmente aos políticos o dever
de nos representar nas instâncias executiva e legislativa, necessitamos lembra-los que a soberania reside em nossas mãos.

Temos direito e dever de nos rebelar. Aceitar resignadamente a supressão seletiva de direitos é prestar um desserviço à democracia. Precisamos identificar quem são de fato nossos algozes. Terceirizar responsabilidades políticas é abrir caminho para o arbítrio se instaurar. Desejar uma ordem social pautada no “cada um por si” seria celebrar a barbárie. Como diz Caetano
Veloso: sejamos o Lobo do Lobo do Homem!

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